Tchetchelnik, Ucrania, 1920 - Rio de Janeiro, Brasil , 1977

Considerada como uma das mais importantes escritoras brasileiras do século XX, estudou Direito no Rio de Janeiro ao mesmo tempo em que colaborava com alguns jornais e revistas locais. Em 1944, surpreendeu à intelectualidade brasileira com a publicação de "Perto do Coração Selvagem", novela pela qual recebeu o prêmio da Fundação Graça Aranha. Viajou muito e morou em diversos países da Europa e nos Estados Unidos com seu marido, o diplomata Maury Gurgel Valente. Escritora inclassificável -ela mesma definia seu estilo como um “não estilo”-, o vasto legado de Clarice Lispector está formado por relatos, novelas, livros infantis, poemas, fotografia e pintura.

  • "Hoy Clarice Lispector es unánimemente reconocida por el mundo intelectual y académico, por las y los lectores más exigentes, y poco a poco por un creciente público, como uno de los grandes genios de la literatura de todos los tiempos." Laura Freixas
  • "Sphinx, sorceress, sacred monster. The revival of the hypnotic Clarice Lispector has been one of the true literary events of the 21st century” Parul Sehgal, The New York Times

Bibliografia

Novedad

Reunião definitiva da extensa produção de Clarice Lispector para jornais, Todas as crônicas apresenta pela primeira vez em volume único toda a obra cronística da autora de A hora da estrela. A coletânea traz as colaborações de Clarice para veículos como Jornal do BrasilÚltima hora e revista Senhor, incluindo 120 textos inéditos em livro, além das crônicas anteriormente publicadas nas coletâneas A descoberta do mundo e Para não esquecer. 

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Novela

Quando a escritora Clarice Lispector terminou Um sopro de vida (Pulsações), às vésperas de sua morte, por câncer, em 1977, sabia que este seria o seu livro definitivo. O livro era de fato o sopro de vida de Clarice, que precisava escrever para se sentir viva. Na história, ela fala de um homem aflito que criou uma personagem, Angela Pralini, seu alter-ego. Mas ora ele não se reconhecia em Angela, porque ela era o seu avesso, ora odiava visceralmente o que via refletido naquela estranha personagem-espelho.

A hora da estrela faz quarenta anos. Nenhum outro livro de Clarice Lispector contribuiu mais para a popularidade da escritora junto ao grande público. Adotada em escolas, vestibulares e universidades, é a obra dela que mais vende e foi levada ao cinema em 1985 com direção de Suzana Amaral. Um pequeno milagre para um volume de pouco mais de 80 páginas, mas que consegue reunir todos os fios de uma escrita única, com a força da linguagem aliando-se a aspectos sociais, ao trágico da vida e, ao mesmo tempo, ao cômico. Uma obra de arte universal que marcou a despedida de Clarice. Para lembrar a data redonda, a Rocco preparou uma edição comemorativa. Além do texto original, contém 16 páginas com a reprodução dos manuscritos da autora. A apresentação da escritora Paloma Vidal é uma crônica-ensaio sobre o processo de descoberta desses esboços, anotações, bilhetes, folhas soltas que se transformariam no livro e foram escritas, com letra desenhada e nervosa, até no verso de talões de cheque. 

Lançada pouco antes de sua morte em 1977, a obra conta os momentos de criação do escritor Rodrigo S. M. (a própria Clarice) narrando a história de Macabéa, uma alagoana órfã, virgem e solitária, criada por uma tia tirana, que a leva para o Rio de Janeiro, onde trabalha como datilógrafa. Em A hora da estrela Clarice escreve sabendo que a morte está próxima e põe um pouco de si nas personagens Rodrigo e Macabéa. Ele, um escritor à espera da morte; ela, uma solitária que gosta de ouvir a Rádio Relógio e que passou a infância no Nordeste, como Clarice. Na Dedicatória do Autor, um pequeno texto que introduz a história propriamente dita, a autora dedica a obra e ela própria à música de Schumann, Beethoven, Bach, Chopin, Stravinsky, Richard Strauss, Debussy, Marlos Nobre, Prokofiev, Carl Orff, Schönberg e outros "que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas".

Clarice Lispector tinha o hábito de dormir cedo, acordar de madrugada e ficar sentada na sua sala pensando, fumando e ouvindo a Rádio Relógio, acompanhada apenas de seu cachorro, Ulisses. Nesses momentos de solidão, nasceram muitas de suas obras, que, depois, ela escreveria com a máquina de escrever apoiada sobre as pernas. "Escrevo-te sentada junto de uma janela aberta no alto do meu ateliê", diz ela em determinado trecho do romance Água viva, em que a autora se confunde com a personagem, uma solitária pintora que se lança em infinitas reflexões sobre o tempo, a vida e a morte, os sonhos e visões, as flores, os estados da alma, a coragem e o medo e, principalmente, a arte da criação, do saber usar as palavras num jogo de sons e silêncios que se combinam, a especialidade da própria Clarice.

Traz uma linguagem que não se perde no tempo; ao contrário, é ricamente metafórica, em que coisas, ações e emoções do dia-a-dia se transformam em grandiosas digressões indagadoras sobre o sentido da existência e da vida. Seguindo a linha de características introspectivas de seus livros, Clarice cria, em Água viva, uma obra singular, verdadeiro relato íntimo que projeta em flashes, como num caleidoscópio, verdadeiros resumos de estados de espírito em tom de confidência, onde a subjetividade sobrepuja o factual e a narradora é responsável pela cadência do texto.

Aprender a amar e a ser ela mesma é o grande desafio da personagem Loreley, cujo apelido é Lóri. Para o leitor, o prazer maior é ir aprendendo aos poucos a conhecer Clarice Lispector, através da trajetória dessa personagem. Ambientado no Rio de Janeiro, Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres conta a história de amor de Lóri e Ulisses. 

Lóri é uma moça rica de Campos, principal cidade do Norte Fluminense, que optou por morar no Rio, onde trabalha como professora primária e pode desfrutar de uma liberdade impossível em sua cidade natal. Ulisses é um professor de Filosofia, que conhece Lóri na rua e aos poucos vai conduzindo-a na aprendizagem do prazer.

Loreley é personagem de uma lenda do folclore alemão, que seduz e enfeitiça os pescadores. Ulisses é o herói da epopéia grega, que vence os obstáculos usando a inteligência. As duas personagens de Clarice trazem as características de seus modelos originais e envolvem o leitor numa trama que se torna ainda mais apaixonante por ser uma aventura no mundo da linguagem, sem começo nem fim. A narrativa começa com uma vírgula, como se fosse a continuação de algo já iniciado, e se encerra com dois pontos, indicando que a estória prossegue, embora não apareça no livro.

Romance original, desprovido das características próprias do gênero, A paixão segundo G.H. conta, através de um enredo banal, o pensar e o sentir de G.H., a protagonista-narradora que despede a empregada doméstica e decide fazer uma limpeza geral no quarto de serviço, que ela supõe imundo e repleto de inutilidades.

Após recuperar-se da frustração de ter encontrado um quarto limpo e arrumado, G.H. depara-se com uma barata na porta do armário. Depois do susto, ela esmaga o inseto e decide provar seu interior branco, processando-se, então, uma revelação.

G.H. sai de sua rotina civilizada e lança-se para fora do humano, reconstruindo-se a partir desse episódio. A protagonista vê sua condição de dona de casa e mãe como uma selvagem. Clarice escreve: “Provação significa que a vida está me provando. Mas provação significa também que estou provando. E provar pode ser transformar numa sede cada vez mais insaciável.”

Seriam os atos do homem, às vezes os mais cruéis, necessários para elevá-lo à condição de imagem e razão? Em A maçã no escuro, Clarice Lispector faz crer que sim, transformando o atordoado Martim em um novo homem após ter supostamente assassinado a mulher. Fugindo do crime, Martim acaba descobrindo-se como homem, desprezando os antigos valores estabelecidos em sua vida. Na corrida por uma nova existência, ele se revela numa outra condição. Sua fuga, em vez de isolá-lo, remonta à criação do homem, de um novo ser surgido do nada. A narrativa, próxima da criação bíblica, em vez de julgar os personagens culpados ou inocentes, faz deles aprendizes do mundo, onde cada etapa funciona como uma gênese de um ser recém-criado.

Mas é a natureza, com a qual Martim passa a conviver de forma mais acentuada ao chegar à fazenda de Vitória, que se transforma em pano de fundo da diferenciação e da combinação entre o homem e o animal, das atitudes racionais contra os atos impensados. No contato com a dona da fazenda, sua prima viúva Ermelinda e a cozinheira mulata, Martim se envolve não numa relação de antítese entre homem e mulher, mas na descoberta de pessoas complementares e ambíguas, dominantes e dominadas que invertem seus papéis a todo momento.

Em 1971, Clarice Lispector disse ao jornal Correio da Manhã que A cidade sitiada, de 1949, foi seu livro mais difícil de escrever. Talvez porque, na história de Lucrécia Neves, o talento de Clarice tenha levado à perfeição o paradoxo de desumanizar ao máximo seus personagens para torná-los visceralmente humanos. A simplória Lucrécia, de A cidade sitiada, docemente desprovida de raciocínio e/ou de consciência, é alma gêmea de Macabéa, que muitos já viram na versão cinematográfica A hora da estrela. Lucrécia é apenas o que ela vê: os cavalos a esmo na suburbana cidade natal de São Geraldo, o morro do Pasto, o armazém, o sol sem vento da tarde.

Lucrécia portanto era São Geraldo. Sua alma, suas emoções eram o tédio do subúrbio. Ela tinha um vago desejo de se casar e, por isto, passeava com o tenente Felipe, do qual gostava da farda militar, mas ele não gostava de São Geraldo, logo não gostaria de Lucrécia. Saía com Perceu Maria, que desprezava talvez por ser atônito e vazio como ela. Mas nenhum dos dois a pedia em casamento e, quando a agonia do coração de Lucrécia batia em descompasso com a modorra da cidade, ela sonhava com um baile. Um baile com música e danças seria a salvação.

O lustre é, provavelmente, o livro menos conhecido de Clarice Lispector. Publicado em 1946 e reeditado pela última vez em 1976, o livro não foge às características que consagraram o estilo único de Clarice: o delicado tom intimista pontualmente quebrado por perturbadoras metáforas, a exposição impiedosa da alma humana sem que sejam revelados os mistérios de cada personagem.

Em O lustre a sensação de inquietude é ainda mais intensa. Trafega-se, a maior parte do tempo, pelo mundo interior da protagonista, Virgínia, desde sua infância numa fazendola em um remoto vilarejo do interior até a vida adulta numa cidade grande e solitária. Clarice não permite ao leitor jamais ter completo acesso ao que se passa do lado de fora — a não ser na crua e, talvez, surpreendente cena final. No universo subjetivo da escritora, a única clareza está nos sentimentos. Virgínia ama seu irmão, Daniel, sua alma gêmea, seu senhor. Virgínia ama seu amante, Vicente, a quem conhece tão pouco... A história é contada como num jogo de luzes e sombras, cada parágrafo permitindo apenas antever, de relance, a força sufocante de tanto amor.

A amoralidade diante da maldade. O instinto na condução da trama, com uma certa dose de automartírio. A história de Joana — não a Virgem d’Orleans, mas a personagem de Clarice Lispector nesta obra de estréia, marcou a ficção brasileira em 1944. A narrativa inovadora (ainda hoje) provocou frisson nos círculos literários. A técnica de Clarice Lispector funde subjetividade com objetividade, alterna os focos literários e o tempo cronológico dá lugar ao psicológico (o presente entremeado ao intermitente flashback).

A prosa leve discorre com fluência e fluidez nos meandros da protagonista, na sua visão de mundo e interação com os demais personagens. Tudo isso revelou Clarice Lispector como mais que mera promessa na prosa da Geração de 45. É o texto do sensível e do imaginário, ora enfrentando ora diluindo-se aos incidentes reais de Joana.

Relatos

O argentino Ricardo Piglia – crítico e narrador que em termos gerais podemos definir como um “especialista da leitura”, que sempre tem em mente a ideia da tradição literária – disse numa entrevista que Clarice Lispector parece uma escritora de outro planeta, no sentido de que não se pode afirmar facilmente que sua literatura é brasileira. Acrescente-se: nem com a literatura de qualquer outro lugar.

Clarice Lispector é justamente um mundo – ou o mundo. A edição de Todos os contos, organizada pelo pesquisador e biógrafo Benjamin Moser, reunindo pela primeira vez em um só volume todos os relatos da autora de “Laços de família” e “Felicidade clandestina”, investe o leitor na qualidade de explorador desse planeta que, pode-se ter uma certeza além da ciência, é demasiadamente humano. Habitado por bichos, homens e sobretudo mulheres, que se revelam, nas mãos de Clarice, maravilhosos em meio à alegria e ao horror da existência.

Originalmente, a coletânea saiu nos Estados Unidos (The complete stories, New Directions, com premiada tradução de Katrina Dodson), e foi selecionada pelo jornal The New York Times como um dos 100 melhores livros de 2015. 

Livro póstumo de contos, A bela e a fera apresenta ao leitor duas Clarices: a primeira, uma jovem aflita, com imaginação de extrema vitalidade, que, aos 14 anos, começa a inventar histórias e a escrever contos insólitos que têm como marca a expressão de intensos impulsos emocionais. 

Clarice Lispector perdera pouco antes sua mãe, que já conhecera paralítica. A menina de 1940 carregava uma dor dupla: a perda da mãe, com quem mal pudera se relacionar, e o martírio de não tê-la salvo da enfermidade ao nascer, conforme a previsão dos médicos. Foi neste contexto que, a partir de 1940, surgiram os contos da primeira parte do livro: "História interrompida", "Gertrudes pede um conselho", "Obsessão", "O delírio", "A fuga" e "Mais dois bêbados". São temas leves de menina, como a adolescente ansiosa para "resolver" seu amor por aquele rapaz estranho, bonito e triste de "História interrompida". Ou a luta de Gertrudes por ajuda para a melancolia em cartas que escreve a uma médica consultora de um jornal em "Gertrudes pede um conselho". Mas o sofrimento é de gente grande, dores maduras, que a autora cultivava há muito tempo, apesar dos poucos 14 anos. 

Publicados pela primeira vez em 1974, os 13 contos que compõem A via crucis do corpo, de Clarice Lispector, são precedidos por uma explicação da autora. Ela diz que as histórias foram feitas sob encomenda e que, contrariando sua vontade inicial, aceitou a tarefa por puro impulso. Tentou assiná-lo com o pseudônimo Cláudio Lemos, mas acabou sucumbindo ao argumento de que deveria ter liberdade para escrever o que quisesse. E foi o que fez, num único fim de semana. Mas registrou: "Se há indecências nas histórias a culpa não é minha."

A via crucis do corpo não tem nada de imoral; é, antes de tudo, uma fresta no cárcere social que mantém a mulher — condutora de todos os contos — supostamente distante de seus desejos e fantasias. Ou dos fardos, como a virgindade. O que Clarice fez foi apenas descrever, de forma leve e bem-humorada, algumas dessas benditas transgressões.

A coletânea de textos de Onde estivestes de noite, de Clarice Lispector, foi publicada pela primeira vez em 1974. São 17 crônicas trágicas e cômicas, onde as dores e as aflições do cotidiano banal são reveladas ora por descrições angustiadas e delirantes, ora por detalhes bizarros, risíveis, bem-humorados.

O texto que dá título ao livro, "Onde estivestes de noite", por exemplo, é uma hipótese, uma visão de um ritual de magia negra ou de uma seita louca qualquer, com a participação de peregrinos fanáticos, uma viagem alucinada, atraente e atemorizante, durante uma noite improvável. Mas tudo aquilo é verdade e existe, garante a autora, quando o dia amanhece, afastando os males e as cenas do inferno, durante uma missa onde os fiéis fazem o sinal-da-cruz: "A manhã estava límpida como coisa recém-lavada", esclarece.

Há histórias hilariantes, como a da senhora Jorge B. Xavier, de "A procura de uma dignidade", uma anciã atrapalhada diariamente acometida por um fogo interior. É uma daquelas pessoas que erram o endereço do seminário e que só fazem questão de ir para cumprir o papel de atualizada, mas acaba passando mal de calor ao final do encontro.

Publicado pela primeira vez em 1971, Felicidade clandestina reúne 25 contos que falam de infância, adolescência e família, mas relatam, acima de tudo, as angústias da alma. Como é comum na obra de Clarice Lispector, a descrição dos ambientes e das personagens perde importância para a revelação de sentimentos mais profundos. "Felicidade clandestina" é o nome do primeiro conto. Como em muitos outros, é narrado na primeira pessoa, e mostra que o prazer da leitura é solitário e, quando difícil de ser conquistado, torna-se ainda maior. O conto narra a crueldade da filha do dono de uma livraria que se recusa a emprestar As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, até que a intervenção da mãe da menina permite à narradora deliciar-se, vagarosamente, com a posse do livro. A história, como outras do livro, acontece no Recife, onde a autora passou sua infância.

Os 13 contos de A legião estrangeira abordam o cotidiano familiar, a perversidade infantil e a solidão. Como apontou o escritor Affonso Romano de Sant’Anna na introdução de uma antiga edição do livro, para Clarice Lispector importa mais a geografia interior. "Em vez de tipos épicos e dramáticos, temos figuras situadas numa aura de mistério, vivendo relações profundas dentro do mais ordinário cotidiano", escreveu. "Mais do que as aventuras, interessa-se por descrever a solidão dos homens diante dos animais e objetos."

Entre os contos destaca-se "Viagem a Petrópolis", escrito quando Clarice tinha apenas 14 anos. Neste, a precoce escritora narra a absurda solidão de uma velhinha que, sem lugar para morar, é empurrada de uma casa para outra. E o leitor perceberá em "Os desastres de Sofia" uma história de transparente sensibilidade, em que a autora aborda a perversidade infantil por meio do relacionamento de uma aluna com seu professor.

A vulnerabilidade dos animais diante dos homens, e vice-versa, está presente em "A quinta história", "Macacos" e ainda em "A legião estrangeira". Como também apontou Affonso Romano de Sant’Anna, a tensão nos contos de Clarice surge da oposição Eu x Outro, que pode ser um animal, uma criança ou uma coisa. "Dessa tensão é que surge a epifania, a revelação de uma certa verdade."

A Clarice Lispector se aplica, mais do que a nenhum outro escritor brasileiro, aquilo que em si próprio detectava o escritor argentino Julio Cortázar, como um estranhamento, el sentimento de no estar del todo – a sensação de não pertencer, descrita por Clarice: "Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi de pertencer... de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada nem a ninguém... Quem sabe se comecei a escrever tão cedo na vida porque, escrevendo, pelo menos eu pertencia um pouco a mim mesma."

O desajustamento crônico às pessoas, ao círculo social, às correntes literárias, ao casamento, ao próprio amor foi uma constante na vida da menina russa exilada que se transformou numa das maiores expressões da literatura brasileira. Clarice alternava sua produção de romances, crônicas, livros infantis com contos. Nestes se mostrou uma mestra incomparável.

Narrativa juvenil / infantil

Uma lenda é verossímil? Sim, porque assim o povo quer que seja. De pai para filho, de mãe para crianças, é transmitida uma fabulação de maravilhas que estão atrás da História. Como ao redor de uma fogueira em noite escura, conta-se em voz sussurrante um ao outro o que, se não aconteceu, poderia muito bem ter acontecido nesse imaginoso mundo de Deus. E assim oralmente se escreve uma literatura plena e suculenta, em que o espírito secreto de todo um povo vira criança e brinca de “faz de conta. Brinca? Não, é muito sério. Pois o que é que pode mais do que um sonho?”. Com essas e outras palavras, belas e certeiras, Clarice Lispector reflete sobre a riqueza e a importância das histórias da cultura popular no texto “A força do sonho”, que abre a nova edição de Doze lendas brasileiras – Como nasceram as estrelas.


Escrito em dezembro de 1976, o texto foi incluído no calendário em que os contos foram publicados originalmente, em 1977, e permanecia inédito em livro.  

Clarice Lispector tinha um dom especial não só para escrever histórias como também para ouvi-las. E foi justamente o seu cãozinho de estimação que veio contar, com muitos latidos que só sua dona entendia, o que estava rolando lá do quintal do vizinho. Ulisses, que era muito peludo e tinha um olhar observador de gente de verdade, descobriu que da união entre o sentimento de inveja e as idéias de más companhias só sai fruto ruim.

Foi o que ele viu quase acontecer com uma grande figueira que dividia o belo e fértil terreno perto de sua casa com galos, galinhas, pintinhos e minhocas. A árvore, revoltada com a infeliz vida que levava, resolveu pedir a uma nuvem má que passava de quando em vez pelo quintal para aprontar umas e outras com os bichinhos. Ela não suportava ver tanta felicidade e tantos ruídos de alegria a sua volta. Só que a figueira jamais imaginou que o feitiço poderia virar – quase de verdade – contra o feiticeiro.

O cão Ulisses e as galinhas desta história, como os bichinhos que povoam os demais livros infantis de Clarice Lispector, foram realmente parte de sua vida, nas diferentes casas em que morou no Brasil, na Itália, na Suíça e na Inglaterra.

Autora de um dos mais intrigantes contos da literatura brasileira – “O ovo e a galinha” – Clarice Lispector também elegeu este animalzinho desajeitado como protagonista do infantojuvenil A vida íntima de Laura, que agora ganha nova edição pela Rocco, com ilustrações de Odilon Moraes. No conto, a galinha é apresentada como um ser que “tem muita vida interior” e, sobretudo, um “disfarce do ovo” – símbolo do mistério da existência. Também em A vida íntima Clarice vai, como de costume, descortinar junto às crianças leitoras o mistério existente sob a vida cotidiana. Tudo a partir do pequeno universo de Laura, uma galinha muito simpática, de pescoço bem feio, casada com um vaidoso galo chamado Luís. 

"Esta história só serve para criança que simpatiza com coelho", comenta Clarice Lispector logo nas primeiras linhas, como se fosse possível alguém não gostar desses pequenos roedores de cenoura. Ainda mais se ele for o Joãozinho, um coelhinho de pêlo branquinho muito especial que, com seu estilo caladão, surpreendeu a todos quando "cheirou" uma incrível idéia "tão boa quanto cenoura fresquinha".

Como todo coelho, Joãozinho franzia o nariz muito depressa quando estava cheirando, ou melhor, pensando em algo importante. Num desses dias em que a barriga estava roncando uma idéia lhe surgiu à cabeça: fugir da casinhola de grade de ferro sempre que esquecessem a sua comida.

"A mulher que matou os peixes infelizmente sou eu." Clarice Lispector começa confessando o "crime" que cometeu sem querer. E para explicar como tudo aconteceu, ela escreveu uma história de compreensão e afeto, contando sobre todos os bichos de estimação que já viveram em sua casa. Os que vieram sem ser convidados e foram ficando, e os que ela escolheu para criar, e que foram muitos: uma lagartixa que comia os mosquitos e mantinha limpa a sua casa, cachorros brincalhões, uma gata curiosa, um miquinho esperto, vários coelhos...

Antes de mais nada, ela explica que sempre foi alguém que gosta de animais, de crianças e também de gente grande. Todos os bichos que aparecem em seus livros fizeram, em algum momento, parte de sua vida. Nada mais natural, então, do que contar simplesmente o que aconteceu com cada um deles. Por isto mesmo, estas histórias são narradas de modo coloquial e muito próximo do cotidiano infantil. Mesmo quando ela fala sobre dor e perda, quando explica que, às vezes, as coisas acontecem diferente da maneira que queremos.

Não ficção

Segundo título da coleção que reúne crônicas de Clarice Lispector escolhidas por temas e selecionadas especialmente para os jovens que travam os primeiros contatos com a obra da autora, De escrita e vida traz as crônicas da escritora sobre o ofício de escrever. Depois de falar De amor e amizade no primeiro livro da coleção Crônicas para Jovens, os textos deste De escrita e vida revelam as alegrias, dores, angústias e, acima de tudo, a estreita ligação entre o simples ato de respirar e a necessidade de escrever da autora de A hora da estrela e A paixão segundo G. H. , entre outros clássicos da literatura brasileira.

Amor e amizade inspiraram Clarice Lispector dezenas de vezes. Prova disso são as quatro dezenas de textos selecionadas pelo editor Pedro Karp Vasquez para a coletânea De amor e amizade – crônicas para jovens, primeiro de uma coleção que reunirá crônicas, escolhidas por temas, de Clarice Lispector.

Sem prender-se a significados prosaicos, a escritora criou durante anos histórias que remetem a amizades daquelas sem tamanho, a amores para o resto da vida, a relacionamentos baseados na superficialidade e até mesmo ao episódio daquele amor destruído por causa de um bule de bico rachado. Passadas mais de três décadas da morte de Clarice Lispector, os textos confirmam que esses sentimentos permeiam relações e gerações.

Para a legião de apreciadores de textos curtos e boas frases o livro Para não esquecer, de Clarice Lispector, é leitura obrigatória. A obra — publicada pela primeira vez em 1964 — reúne 108 crônicas que bem poderiam pertencer a um diário. Ora a autora conta uma pequena história, ora ela simplesmente parece pensar alto. "Os homens têm lábios vermelhos e se reproduzem. As mulheres se deformam amamentando", diz, em Aldeia italiana. No final desse curtíssimo artigo, Clarice resume: "A vida é triste e ampla." A cidade de Brasília merece um dos maiores textos desse livro. A primeira parte foi escrita em 1962 e a segunda, 12 anos mais tarde, quando a escritora retornou à capital brasileira. Em ambas ela fala sobre suas impressões com algum carinho e bastante ironia. "Os ratos adoram a cidade. Qual será a comida deles? Ah, já sei: eles comem carne humana."

Não há ligação entre as crônicas; são anotações para não ser esquecidas. Em Aproximação gradativa ela diz apenas: "Se eu tivesse que dar um título a minha vida seria ‘A procura da própria coisa.’" O tom seco e perturbador não reaparece na crônica A posteridade nos julgará em que ela se dedica a explicar — ou entender — o que é uma gripe. "É a experiência da catástrofe inútil. É um lamento covarde que só o gripado compreende." Pensatas à parte, Clarice Lispector também faz desabafos em seu livro/diário: "Dei inúmeras entrevistas. Modificaram o que eu disse. Não dou mais entrevistas. E se o negócio é mesmo na base da invasão de minha intimidade, então que seja paga. Disseram-me que nos Estados Unidos é assim. E tem mais: eu sozinha é um preço, mas se entra o meu precioso cachorro, cobro mais. Se me distorcerem, cobro multa. Desculpem, não quero humilhar ninguém, mas não quero ser humilhada."

Antologia / Seleção

Mergulhar em As palavras, livro que reúne fragmentos da obra de Clarice Lispector, com curadoria de Roberto Corrêa dos Santos, é quase como presenciar uma declaração dupla de amor. Amor do acadêmico e pesquisador pela obra de Clarice, que transparece na seleção das frases, pinçadas com o intuito de revelar a genialidade da escrita da autora e de inserir o leitor em seu universo poético. E amor de Clarice pela vida, pela busca incessante em tentar expressar em palavras aquilo que parece indizível: os sentimentos, o mundo interior. 

A seleção inclui todo tipo de escrita realizada pela autora. Há desde trechos de romances, contos e crônicas, até cartas e anotações pessoais. Apesar de não cobrir toda a obra da escritora, o livro dá conta de boa parte dela. As frases revelam Clarice em diferentes etapas de sua vida, já que estão presentes trechos de seu romance de estreia, Perto do coração selvagem, escrito quando ela tinha apenas 19 anos, até fragmentos de seu último livro, Um sopro de vida, publicado postumamente em 1978.

A leitura da sucessão de frases traz a impressão de que estamos diante da fala da própria autora, de suas crenças sobre a vida. Mas, ao mesmo tempo, aproxima o leitor do que está sendo dito, favorece a identificação. “Tempo para mim significa a desagregação da matéria”, afirma a narradora de Um sopro de vida. “Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho”, diz o narrador de A hora da estrela. “A atualidade sou eu sempre no já”, revela um dos trechos de Água viva

Cuarto libro de la colección Cronicas para jovens -dirigida por Pedro Karp Vasquez-contiene algunas de las crónicas más conmovedoras de la escritora; aquellas en las que habla de los animales y su relación con los seres humanos.  Con una percepción profundadel mundo animal, Lispector se interesa por todos y cada uno de los seres vivos: de las enormes ballenas a los pequeños insectos, con un especial afecto por los perros y una gran compasión por las gallinas, siempre tan despreciadas.

Cuando por fin regresó al Brasil, Clarice Lispector no dudó y eligió Río de Janeiro para asentarse y criar a sus hijos. Como cronista, siempre buscó sus temas en las calles de la ciudad o en sus conversaciones con las personas que más saben de esta. En Do Rio de Janeiro e seus personagens. Cronicas para jovens, la autora lleva al lector joven a un emocionante recorrido por la Cidade Maravilhosa.

Clarice Lispector escribió nueve novelas. Este libro reúne no sólo fragmentos de esas obras, sino las historias que revelan su búsqueda, lo que la propia autora definió como "lo que hay detrás detrás del pensamiento." Antes de cada texto, el editor de la colección, José Castello, hace una síntesis de la novela en cuestión y el momento vivido por Clarice al escribirla.

Reunião de vinte textos escolhidos por convidados afeitos à obra de Clarice Lispector, Clarice na cabeceira apresenta uma leitura selecionada de narrativas curtas publicadas entre 1962 e 1973, na revista Senhor e no Jornal do Brasil, e posteriormente agrupadas nos livros A descoberta do mundo e Para não esquecer. Abordando temas tão diversos quanto as memórias da infância, a vida, a morte, o amor, o ato de escrever, o silêncio, a maternidade e a indignação, as crônicas ganham sabor especial quando apresentadas por amigos e admiradores de Clarice, que compartilham o impacto da escritora e de sua obra em suas vidas, como Eduardo Portella, Ferreira Gullar, Marília Pêra, Maria Bonomi e Naum Alves de Souza, entre outros. Com organização de Teresa Montero, autora de Eu sou uma pergunta – Uma biografia de Clarice Lispector, publicada pela Rocco, Clarice na cabeceira é a oportunidade de conhecer “perfeitos momentos da literatura brasileira moderna, perfeitos momentos da vida nas palavras, perfeitos momentos”, como descreve Caetano Veloso ao falar sobre o sentimento que a leitura de Clarice provoca.

 

 

Idos e relidos, os contos de Clarice Lispector mantêm-se muito próximos de seus leitores, seres apaixonados e extasiados com os escritos da que ultrapassou fronteiras, conquistou todos os continentes, sendo eternizada até nos idiomas mais incomuns. Clarice na cabeceira, organizado pela doutora em Letras Teresa Montero, é uma bem escolhida amostra de instantes de beleza retirados das obras de Clarice Lispector e apontados por 22 integrantes da legião de fãs da escritora. E não se trata de quaisquer fãs. Luis Fernando Verissimo, Fernanda Torres, Affonso Romano de Sant’Anna, Rubem Fonseca, José Castello, Maria Bethânia e Luiz Fernando Carvalho são algumas das personalidades que compõem o time estelar de colaboradores do livro.

A seleção afetiva realizada por esses escritores, atrizes, cineastas, cantoras, jornalistas e críticos literários reúne textos de cada um dos livros de contos de Clarice: Laços de família (1960), A legião estrangeira (1964), Felicidade clandestina(1971), A via crucis do corpo (1974), Onde estivestes de noite (1974) e A bela e a fera (1979). Junto a cada um desses 22 contos que compõem Clarice na cabeceira, cada um dos leitores convidados compartilha a experiência de ter Clarice Lispector em suas vidas, seja por ter convivido com ela em algum momento, seja apenas por meio de seus livros. Em ambos os casos, a presença da escritora se faz marcante.

Outros escritos traz ao público diversos escritos inéditos de Clarice Lispector. Mas, desta vez, eles não se encontram assinados pela escritora consagrada, mas pela escritora iniciante, pela jornalista, pela estudante de direito, pela colunista feminina, pela dramaturga, pela mãe, pela conferencista e ensaísta Clarice Lispector.

Clarice Lispector sempre reconheceu o fragmento, a anotação dispersa, o ‘fundo de gaveta’ como parte essencial e indissociável de sua produção literária. Era a partir de seus apontamentos, num primeiro momento desconexos, que ela costumava extrair posteriormente uma unidade, transformando-os numa obra pronta e acabada. Organizado por Lícia Manzo e Teresa Montero, Outros escritos obedece esse mesmo critério ao agrupar cada uma dessas ‘clarices’ dispersas e fragmentadas, e observar uma unidade conectando-as umas às outras. Cada escrito de Clarice parece marcado pelo mesmo olhar sensível, singular e feroz da mulher e criadora que, tantas vezes sozinha, caminhou à frente de seu tempo.

Obra jornalística

Reunião definitiva da extensa produção de Clarice Lispector para jornais, Todas as crônicas apresenta pela primeira vez em volume único toda a obra cronística da autora de A hora da estrela. A coletânea traz as colaborações de Clarice para veículos como Jornal do Brasil, Última hora e revista Senhor, incluindo 120 textos inéditos em livro, além das crônicas anteriormente publicadas nas coletâneas A descoberta do mundo e Para não esquecer. Todas as Crônicas permite uma apreciação completa da atividade da autora como cronista. A obra está dividida em três partes: a primeira corresponde ao período do Jornal do Brasil, contendo material que não havia sido publicado na coletânea A Descoberta do Mundo; a segunda engloba as colaborações com outros veículos de imprensa, muitas delas inéditas em livro; a terceira recupera esparsos do livro Não esquecer. A organização da coletânea ficou a cargo do editor Pedro Karp Vasquez, a partir de pesquisa textual de Larissa Vaz. O livro traz ainda prefácio assinado pela escritora Marina Colasanti.

Dois livros em um. Correio para mulheres traz os conselhos e as dicas de Clarice Lispector publicados em diferentes colunas e veículos da imprensa ao longo dos anos 1950 e 1960 e organizados pela professora Aparecida Maria Nunes, doutora em Literatura Brasileira pela USP, nos volumes Correio feminino (2006) e Só para mulheres (2008). Agora num único livro, os textos, assinados sob pseudônimos como Tereza Quadros e Helen Palmer, ou ainda como Ilka Soares, famosa atriz de quem Clarice foi ghost writer, mostram a faceta de jornalista feminina da escritora, entrevendo-se, aqui e ali, pequenas pérolas literárias do estilo clariceano, além de traçar um singular retrato da sociedade da época.

Clarice Lispector, enquanto trabalhava sua ficção, manteve intensa atuação na imprensa. Vale dizer, apenas para mensurar seu ofício de jornalista, que Clarice escreveu cerca de 450 colunas destinadas ao universo da mulher, o que equivale aproximadamente a cinco mil textos, distribuídos em fragmentos de ficção, crônicas, noticiário de moda, conselhos de beleza, receitas de feminilidade, dicas de culinária, educação de filhos e comportamento. Como entrevistadora, foram cerca de 100 textos. E, somente para oJornal do Brasil, na fase áurea do matutino carioca, publicou mais de 300 crônicas.

Organizado pela pesquisadora Aparecida Maria Nunes, Clarice na cabeceira – jornalismo é uma amostra dessa atividade, a melhor que pode haver. Nele, o leitor terá o privilégio de entrar em contato com textos inéditos, como a primeira entrevista que Clarice Lispector realizou, em 1940, com o poeta católico Tasso da Silveira, e a última, em 1977, com a artista plástica Flora Morgan Snell. Em ambas, está presente a maneira original de Clarice entrevistar: tem-se conhecimento de particularidades dos entrevistados e da própria Clarice, que, fugindo às regras do gênero, não se furta de participar, na maioria das vezes, da conversa. E, quando o faz, é sempre de forma deliciosa e provocadora.

A nova coletânea recupera as colunas femininas assinadas pela escritora sob os pseudônimos de Tereza Quadros, Helen Palmer e Ilka Soares para os jornais Correio da ManhãDiário da Noite e Comício, complementando a seleção reunida no livro Correio feminino, lançado pela Rocco em 2006. Os textos possuem a elegância característica de Clarice e convidam o leitor para uma viagem no tempo em que se desenha, na forma de um variado almanaque, o rosto da mulher brasileira dos anos 50 e 60.

De fato, a mulher para quem Clarice escreve nas páginas femininas dos jornais está em busca de seu próprio rosto. Um rosto que reflita beleza e doçura, qualidades sempre procuradas no ser feminino, mas que contenha também suas indagações sobre a educação dos filhos, a harmonia familiar, os cuidados domésticos, o comportamento social e a convivência amorosa, em meio às novidades de uma época marcada por mudanças. As colunas registram, assim, as preocupações da brasileira urbana de classe média, que começava a ensaiar também os primeiros passos na vida profissional, procurando facilitar a sua vida e ensinar pequenos truques que podem ajudá-la na árdua tarefa de encontrar-se a si mesma. Tudo isso num tom de conversa entre amigas, como prescreve o jornalismo feminino.

Entre maio de 1968 e outubro de 1969, já consagrada na literatura brasileira, Clarice Lispector manteve uma seção na revista Manchete, onde publicava entrevistas com figuras importantes da cultura do País. Sob um título condizente com o de boa parte de sua obra – "Diálogos Possíveis com Clarice Lispector", a seção trazia um pouco do mundo dos amigos da escritora, que discorriam sobre diversos temas, pontuados com observações da especialíssima repórter, que voltou às entrevistas em fins de 1976, na revista Fatos e Fotos: Gente, onde permaneceu até outubro do ano seguinte, dois meses antes de morrer. Algumas das conversas de Clarice estão em Entrevistas – Clarice Lispector, que, mais do que contar a vida e opiniões de personalidades como Nelson Rodrigues, Ferreira Gullar, Emerson Fittipaldi, Oscar Niemeyer e Vinícius de Moraes, revelam muito da escritora e do comportamento naquelas épocas.

Da mesma maneira que apresentadores de talk shows recebem seus convidados atualmente, Clarice mostra intimidade com os entrevistados. Uma intimidade que permite comentar com o então jovem e solteiro Chico Buarque que seu ar de "bom rapaz" faz dele o genro ideal para "todas as mães com filhas em idade de casar" ou que a autoriza a telefonar para "uma das esposas" de Vinícius de Moraes e perguntar como ela se sente casada com o poeta.

Se você trabalha fora, comanda ou dirige equipes, trata de assuntos comerciais com homens, interessa-se por força da profissão, pela cotação do mercado, pela contabilidade mecanizada, enfim, se você é obrigada a deixar de lado as maneiras delicadas e muito femininas, muito cuidado! O grande perigo que a ameaça é a masculinização de seus gestos, de sua palestra, de seus pensamentos". O conselho, quem diria, é de Clarice Lispector, e faz parte do lançamento Correio feminino, uma seleção de textos da escritora publicados em colunas e suplementos femininos da imprensa brasileira durante as décadas de 50 e 60. Lidos hoje, estes textos delineiam o contorno da mulher e da sociedade brasileira nos chamados anos dourados. O livro chega às livrarias a partir do dia 15 de julho, pela Rocco, sob a organização da professora Aparecida Maria Nunes.

Em Correio Feminino, mais do que a escritora consagrada, é a "jornalista feminina" que se apresenta ao leitor. A Clarice Lispector que aceita o convite do cronista Rubem Braga e se aventura na elaboração de páginas dedicadas às mulheres no periódico Comício, criado em 1952, protegida sob o pseudônimo de Tereza Quadros. A Clarice que, no início dos anos 60, dá conselhos de beleza e dicas de como manter uma personalidade cativante para conquistar o bem-amado, dessa vez com o pseudônimo de Helen Palmer, nas páginas do Correio da Manhã. Ou ainda a ghost writer de Ilka Soares na coluna "Só para mulheres", publicada no Diário da Noite. Em todas elas, a escritora vasculha o universo da mulher, em conselhos e reflexões.

Aprendendo a viver é uma seleção das crônicas mais confessionais escritas por Clarice Lispector na década de 70. Organizado por Pedro Karp Vasquez, o livro reúne uma série de textos em que a escritora conta sua própria vida. É Clarice Lispector na primeira pessoa, detalhando passagens marcantes de sua história, divagando sobre os temas mais variados, revelando particularidades de seu cotidiano e esmiuçando seu processo criativo. Com ele, a Editora Rocco celebra os 40 anos de publicação de A paixão segundo G.H., romance que representa um divisor de águas na obra da autora e que hoje é considerado um clássico da literatura brasileira.

Os textos reunidos em Aprendendo a viver foram publicados originalmente no Jornal do Brasil, entre agosto de 1967 e dezembro de 1973, período em que Clarice Lispector assinava uma crônica semanal no diário carioca. A escritora aproveitava aquele espaço das formas mais variadas: ela discutia acontecimentos recentes, filosofava sobre a existência, tratava de acontecimentos cotidianos e até antecipava trechos de seus romances inéditos. Em 1984, esse vasto material foi reunido no livro A descoberta do mundo. A partir desta obra, a editora Rocco cuidadosamente selecionou as crônicas mais confessionais de Clarice Lispector para dar forma à delicada autobiografia Aprendendo a Viver.

Uma Clarice Lispector “um pouco sem jeito” apresentava-se a seus leitores, em setembro de 1967, cerca de vinte dias após estrear como colunista do Jornal do Brasil. Esclarecia seu desconforto em escrever por encomenda, algo que fizera, na imprensa, anonimamente. “Assinando, porém, fico automaticamente mais pessoal. E sinto-me um pouco como se estivesse vendendo minha alma.” Ao longo dos seis anos seguintes, a escritora aproveitou aquele espaço das formas mais variadas: ela discutiu acontecimentos recentes, filosofou sobre a existência, tratou de acontecimentos cotidianos, falou de sua família e de suas angústias, e até antecipou trechos de seus romances inéditos. Esse vasto material foi reunido na coletânea de crônicas A descoberta do mundo, em 1984, e ganha agora, 25 anos depois, uma nova edição, que marca o início do relançamento das obras completas de Clarice Lispector em novo projeto gráfico, numa justa homenagem da Rocco à autora de A hora da estrela, que acaba de completar dez anos na casa.

Os textos revelam elementos da escritora reflexiva que tanto se preocupou com a essência da alma humana. As crônicas também mostram como ela se preocupava com o leitor, recusava a fama de hermética e desejava uma troca profunda com ele. Em vários trechos do livro, ela responde às cartas dos leitores, desfaz mal-entendidos, explica o que porventura não tivesse ficado claro em textos anteriores e até pede desculpas por ter escrito algo que tenha dado margem a interpretações erradas. Ao ganhar um prêmio por seu livro infantil O mistério do coelho pensante, ela se admira que consiga ser compreendida por crianças, mas que seja considerada “difícil” quando escreve para adultos.

Correspondência

Minhas queridas tem uma importância singular para entender a trajetória literária de Clarice Lispector e, mesmo, apontar novas leituras sobre a sua biografia. Organizado pela professora Teresa Montero, autora da biografia Eu sou uma pergunta (Rocco, 1998), o livro traz 120 cartas inéditas escritas por Clarice Lispector para as irmãs, Tania Kaufmann e Elisa Lispector, entre 1940 e 1957. Enquanto relata suas impressões sobre as 31 cidades por onde passa, as novidades da literatura, da música, do cinema e do teatro, a descrição do seu processo criativo, suas angústias acerca da publicação e repercussão de seus livros, a escritora mostra a história do amor e da ternura entre ela e suas irmãs, onde a vida privada é pontuada por momentos importantes da história política da Europa e dos Estados Unidos. A coletânea chega às livrarias em novembro, encerrando o ciclo de comemorações pelos 30 anos de A hora da estrela, publicado em outubro de 1977.

No período abordado no livro, durante os 13 anos vividos no exterior, Clarice Lispector escreveu dois romances – A cidade sitiada (1949) e A maçã no escuro (1961), visto que O lustre, publicado em 1946, já estava concluído quando a autora mudou-se para Nápoles e vários contos, incluídos nos volumes Laços de família (1960) e A Legião Estrangeira (1964). As cartas permitem acompanhar, portanto, o processo de realização destas obras e a reação da autora às impressões da crítica especializada e de amigos mais próximos. Mas a ânsia em receber notícias das irmãs parece tão grande quanto a necessidade de escrever: “... Penso que vocês acham que eu levo tal grande vida que menos cartas, mais cartas, me dá no mesmo. Que eu levasse essa tal maravilha de vida, e precisaria de cartas de vocês”, diz Clarice, de Nápoles, em 1944.

"Desculpe, não estou mais ouvindo, a distância é grande, minha ‘aura’ está acabando e o esforço desta comunicação é tão sobre-humano que mal tenho força de assinar", lamentava a jovem Clarice Lispector ao escritor Lúcio Cardoso, num bilhete curto, o silêncio do amigo e leitor cuidadoso de seus primeiros textos.

Como revirar a velha caixa de cartas, a recente publicação de Correspondências, de Clarice Lispector, pela Editora Rocco, traz à tona os enfrentamentos cotidianos da autora, expostos em 129 cartas trocadas com outros escritores, artistas, intelectuais e familiares, sendo 70 cartas de autoria de Clarice e 59 recebidas por ela. A coletânea — idealizada pela família de Clarice e organizada por Teresa Montero, também autora de uma biografia da escritora, Eu sou uma pergunta— reúne cartas, inéditas em sua maior parte, que permitem a compreensão da produção literária da escritora, assim como um encontro com sua intimidade.

Correspondências cobre quatro décadas da vida de Clarice Lispector, da década de 1940 até pouco antes da sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro, em dezembro de 1977. Entre seus correspondentes estão o marido, Maury Gurgel Valente, os amigos Bluma Wainer e Fernando Sabino, com quem manteve uma rica e frutuosa correspôndência, até trocas mais pontuais, como as de Manuel Bandeira e Fernanda Montenegro.

Outros géneros

Mais uma faceta pouco conhecida da escritora Clarice Lispector vem a público no lançamento Clarice Lispector – pinturas, do português Carlos Mendes de Sousa, professor de literatura brasileira na Universidade do Minho e um dos maiores especialistas do mundo na obra da escritora. Trata-se da profunda relação da autora com as artes plásticas, e os reflexos dessa relação em seu pensamento em sua vasta obra.

Grande admiradora das artes, Clarice tinha especial interesse pela pintura, conviveu com diversos artistas e produziu suas próprias pinceladas, cerca de 20 delas reproduzidas no livro. “A atmosfera pictórica contamina a escrita de Clarice Lispector em aspetos mais ou menos visíveis”, afirma Sousa, que ao longo de sua análise utiliza trechos de romances, contos, crônicas e até mesmo cartas da escritora, que comprovam o quanto o universo da pintura esteve presente em sua vida e obra.

El libro registra los momentos más significativos de la vida y la obra de la escritora brasileña. El trabajo de Nádia Battella Gotlib ofrece una impresionante colección de imágenes de los lugares en que vivió y desarrolló su labor la autora.

Clarice Lispector tem o poder de encantar sucessivas gerações de leitores. Sua obra conquista mais leitores, num número crescente de países, comprovando que seu legado literário está mais vivo do que nunca, falando ao coração de muitos milhares de pessoas que ainda não eram nascidas quando ela faleceu, em 1977. Leitores jovens, de ambos os sexos e das mais diferentes culturas, que comprovam a universalidade e a imperecibilidade de seu legado literário. Para esta legião de leitores de todas as idades, a editora Rocco lança Aprendendo a viver - Imagens, compilação de fotos inéditas do acervo pessoal da família de Clarice e trechos de sua elogiada obra.

Organizado pela professora e biógrafa da autora, Teresa Montero, e pelo fotógrafo Luiz Ferreira, as fotografias selecionadas para o livro mostram Clarice em todas as fases de sua vida, da infância até a década de 70. Para cada imagem, uma amostra do pensamento da autora, como esta: "O presente é o instante em que a roda do automóvel em alta velocidade toca minimamente o chão. E a parte da roda que ainda não tocou tocará num imediato que absorve o instante presente e torna-o passado. Eu, viva e tremeluzente como os instantes, acendo-me e me apago, acendo e apago, acendo e apago."

Prémios

  • 1943 - Graça Aranha Prize: Best First Novel, Perto do Coração Selvagem
  • 1961 - Premio Jabuti de Literatura: Cuentos/crónicas/novelas