Os sinos da agonia

Os sinos da agonia

Novela , 1974

Ed. Rocco

Amor incestuoso num intenso período da História do Brasil. Estética de uma tragédia

A história de Malvina e Gaspar, que se passa no fausto da Vila Rica do século XVIII, fez com que Os sinos da agonia, lançado em 1974, fosse considerado, por um lado, um romance histórico e, por outro, uma metáfora da situação política do Brasil sob a ditadura. Mas Autran Dourado estava, no entanto, menos preocupado com a recriação romanesca de uma época ou com o simbolismo social ao se dedicar, em um ano e meio de elaboração, a um exercício de estilo original que faz dialogar o universo barroco mineiro com a tragédia grega.

Do primeiro, ele toma a ambientação histórico-social e, também, a caracterização dos personagens. Bela, pobre e ambiciosa numa sociedade próspera que já conhece seus primeiros momentos de decadência, a jovem Malvina vê no casamento uma saída para a vida sem horizontes na casa paterna. Porém, a união com o velho e poderoso João Diogo Galvão vai representar menos redenção do que danação a partir do momento em que ela se apaixona pelo enteado Gaspar.

Da tragédia clássica vêm os arquétipos deste amor incestuoso: Malvina é, como afirma o próprio Autran, uma recriação de Fedra, personagem-título da tragédia de Eurípedes que também foi narrada por Racine. Prosseguindo neste paralelo, Gaspar é Hipólito e João Diogo, Teseu. "Os mitos da Antigüidade Clássica continuam existindo na medida em que, se você afasta um mito da sua vida, o lugar dele não é ocupado pela razão, mas sim substituído por outro mito", afirmou Autran ao justificar sua opção estética.