É agora, José?
Biografía / Memorias , 1977
Moares
Páginas 333
Após a Revolução dos Cravos, Portugal parecia ter deixado para trás a sombra do salazarismo. Mas em E Agora, José?, José Cardoso Pires regressa ao antigo edifício da PIDE — a polícia política da ditadura — e descobre que o passado não desapareceu; apenas começa a reorganizar-se sob novas formas.
Convocado para consultar um processo, o autor depara-se com um paradoxo inquietante: antigos torturadores voltam a circular livremente, as estruturas de poder permanecem praticamente intactas e a justiça continua nas mãos de quem sustentou o regime. O que deveria ser um tempo de rutura revela-se um terreno ambíguo, onde a memória se dilui e a história recente corre o risco de ser reescrita.
A partir dessa experiência, Cardoso Pires constrói um texto híbrido — entre crónica, ensaio e memória — que analisa o fracasso parcial do impulso revolucionário e o perigo de um esquecimento prematuro. Entre evocações pessoais, homenagens e reflexão política, o livro torna-se um aviso lúcido: se o passado não for enfrentado, regressa — mais silencioso, talvez, mas igualmente persistente.
Com uma prosa mordaz e desencantada, E Agora, José? coloca uma pergunta que ainda ecoa: o que acontece quando a história parece avançar, mas na verdade gira sobre si mesma?
